Questões para um jornalismo em crise será lançado em Santa Catarina dia 9

Organizado pelo professor Dr Rogério Christofoletti, livro reúne artigos de mestrandos e doutorandos do PosJor UFSC

12316651_1028791517141647_6367166152911721865_n

 

O futuro da atividade jornalística diante de um cenário de transformações é a base de Questões para um jornalismo em crise, a ser lançado dia 9 de dezembro, quarta-feira, em Florianópolis. Organizado pelo professor Dr Rogério Christofoletti, da Universidade Federal de Santa Catarina, o livro reúne treze textos que refletem sobre a situação do campo e arriscam alternativas para a crise dos impressos, as redações e a indústria de conteúdos.

 

O livro teve lançamento nacional durante encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores de Jornalismo (SBPJor), em novembro, em Campo Grande (Mato Grosso do Sul). Em Florianópolis, o livro será lançado quarta-feira, 9, a partir das 19h30min no Tralharia Café e Bar, na Rua Nunes Machado, 104. Publicada pela Editora Insular, a obra surgiu a partir dos debates nas aulas do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo. O desafio foi pensar soluções frente às mudanças tecnológicas e culturais dos últimos vinte anos.

 

Demissões em massa, queda nas tiragens dos meios impressos, redução das verbas publicitárias e até fechamento de jornais e revistas. O diagnóstico é de crise e ela não se limita à indústria jornalística brasileira. Está em todas as partes. Diante desse quadro, empresas, gestores e jornalistas se dividem entre lamentos, desespero e busca de soluções. Nos meios acadêmicos, também existe muita apreensão. “Para os que acreditam no jornalismo e na sua importância para sociedades mais evoluídas, equilibradas e justas, o livro reúne reflexões de quem se preocupa com os próximos anos nas redações e fora delas”, argumenta o professor Christofoletti.

 

As perguntas incômodas que servem de títulos aos capítulos são endereçadas a profissionais, empresários do setor, públicos e demais grupos interessados. São questões para o aprimoramento das práticas produtivas e para relações mais honestas produtores e consumidores de notícias. Os capítulos indagam, mas também arriscam respostas, mesmo que provisórias. Os temas são diversos: o convívio entre profissionais e amadores, newsgames, reportagens multimídia, infografias interativas, a segunda tela, a convergência dos meios, redes sociais, novas audiências, ensino de jornalismo, crítica de mídia, privacidade e a natureza endêmica da crise. “A academia não tem todas as respostas, mas fazer as perguntas é uma forma de enfrentar os muitos dilemas que temos na área”, justifica Christofoletti.

 

Serviço:

Questões para um jornalismo em crise – Rogério Christofoletti (org.)
Editora Insular
256 páginas
R$ 30,00 – PREÇO PROMOCIONAL DE LANÇAMENTO

 

Autores: Adriano Araújo, Alexandre Bonacina, Alexandre Lenzi, Amanda Miranda, Ana Paula Bourscheid, Anna Carolina Russi, Carlos Marciano, Jéssica Gonçalves, Kérley Winques, Lívia de Souza Vieira, Magali Moser, Mariane Pires Ventura, Mauren Del Claro Rigo, Maurício Frighetto, Maurício Oliveira, Ricardo José Sékula, Ricardo Torres, Rogério Christofoletti, Tássia Becker Alexandre e Vinicius Batista de Oliveira.

 

 

Estrutura do livro

 

Sumário

 

Prefácio: A experimentação e o risco no jornalismo pela internet
Carlos Castilho

 

Apresentação: Garrafas ao mar!
Rogério Christofoletti

 

O que o futuro nos reserva?
Ana Russi, Magali Moser e Maurício Oliveira

 

A crítica de mídia pode ajudar a superar a crise?
Adriano Araújo

 

Qual o papel das novas ferramentas na transformação do jornalismo?
Kérley Winques e Ricardo Torres

 

Vale tudo pelo clique?
Lívia Souza Vieira

 

Já temos uma alternativa para a reportagem multimídia?
Alexandre Lenzi

 

Que novas possibilidades a segunda tela traz para a TV?
Mariane Ventura e Tássia Becker Alexandre

 

É possível pensar um rádio esportivo pós-industrial?
Jéssica Gonçalves

 

Dez anos depois, como estão os newsgames?
Ana Bourscheid e Carlos Marciano

 

Como profissionais e amadores usam o Facebook para fazer jornalismo?
Alexandre Bonacina e Mauren Rigo

 

A paródia do jornalismo contribui para sua crise representativa?
Ricardo Sékula

 

Que imagem precária é essa que surge nos jornais?
Vinicius Batista de Oliveira

 

Como fica o ensino do jornalismo em meio às turbulências?
Amanda Miranda e Maurício Frighetto

 

Privacidade: o que podemos esperar quando não podemos mais esperar?
Rogério Christofoletti

 

Anúncios

Negra Blumenau

12239269_1022148204472645_7046011466979871095_oFoto: Rafaela Martins

Esta boneca se chama Quitana. Em novembro de 2007 eu e a repórter fotográfica Rafaela Martins a conhecemos durante a produção da série de reportagens Negra Blumenau, sobre as influências afrodescendentes na “loira Blumenau”, publicada no Jornal de Santa Catarina no mesmo período. Ela morava com os pais na Rua Pedro Krauss Sênior, conhecida como “Beco das Cabras”, no Vorstadt. Quitana perdeu a casa na tragédia de 2008 e nosso último contato foi num abrigo, logo após a catástrofe. Não sabemos do paradeiro dela, mas não esquecemos: Ela sonhava conhecer o mar. Ontem à noite lembramos dela e de outras pessoas especiais e esquecidas pela história oficial que encontramos no caminho durante este trabalho marcante. A convite de Lenilso Silva, do Movimento Cisne Negro Blumenau, tivemos a honra de participar com a exposição Negra Blumenau, da abertura das atividades do mês da Consciência Negra na cidade. A exposição fica aberta a visitação pública até o fim deste mês no Mausoléu Dr Blumenau. Abaixo, o texto da apresentação da exposição.

 

Há uma outra Blumenau além da marcada pelas raízes alemãs, de gente galega, pele e olhos claros. A frase que serviu para abrir a série de reportagens Negra Blumenau, publicada em 2007, no Jornal de Santa Catarina, permanece com sentido inalterado. Especialmente depois das tentativas de reforçar a identidade de algo que não pode ser hegemônico, com campanhas como Blumenau: Alemanha Sem Passaporte e o Brasil de Alma alemã. Localizada numa das regiões consideradas mais desenvolvidas do Estado – o Vale do Itajaí, a cidade se tornou símbolo de “um Brasil que deu certo”, associado frequentemente às tradições, cultura e traços europeus. É como se fosse um fragmento da Alemanha no Brasil, a exemplo da maneira como aparece citada em diferentes narrativas por diversos agentes na literatura, publicidade, história oficial e na imprensa.

“É um outro país dentro do Brasil”, dizem os turistas entusiasmados. “Trata-se da Europa brasileira”, sustenta o discurso turístico. “Bem-vindos ao Vale Europeu”, saúdam as placas indicativas às margens das rodovias. A pujança econômica, assim como a força produtiva e a capacidade empreendedora da cidade também aparecem em reforço a este discurso. A exaltação da germanidade em Blumenau ganha força e visibilidade. Apaga e silencia os outros traços que ajudam a formar a sua diversidade.

Negra Blumenau nasceu de uma inquietação diante da maneira como a cidade é representada na imprensa. A série de reportagens foi publicada de 20 a 24 de novembro por ocasião da passagem do Dia da Consciência Negra. No trabalho, mostramos (eu e a fotógrafa Rafaela Martins) que antes mesmo da chegada dos 17 imigrantes alemães à Foz do Ribeirão da Velha, escravos africanos ocupavam a então colônia e foram responsáveis pela construção dos primeiros pilares que deram origem à estrutura.

A versão oficial sobre a questão nos livros didáticos costuma esconder o espinhoso tema da escravidão no Vale do Itajaí. Os historiadores Marlon Salomon e André Voigt apresentam uma estatística de que em torno de 800 escravos viveram no Vale do Itajaí às vésperas da abolição. A afirmação é baseada em documento produzido pela Junta de Classificação de Escravos de Itajaí. Oficialmente Dr Blumenau era contra o comércio de escravos na colônia, no entanto, em carta ele confessa a contratação de três escravos incumbidos de iniciar os trabalhos na colônia.

Em 2007, quando sugerimos um olhar sobre a condição do negro em Blumenau, uma reação especialmente nos surpreendeu. Na redação, ouvimos o questionamento de um colega jornalista: “Mas há negros em Blumenau?”. Não se tratava de uma brincadeira de mau gosto. Ele realmente falava sério e deixava transparecer a necessidade urgente de tratar o tema. Se houve resistências, as manifestações de apoio e incentivo também vieram. De todas as partes. Até da Alemanha, de onde nos escreveu uma leitora emocionada com o que viu. A série foi agraciada com a Comenda Zumbi dos Palmares, pela Câmara de Vereadores de Blumenau. Quando foi publicada, os negros somavam 17 mil em Blumenau. Sabemos que hoje o número é superior.

O convite para integrar com a série as atividades do mês da Consciência Negra nos honra, mas também nos entristece. Sim. Saber que em oito anos não houve nenhuma outra iniciativa que contemplasse com profundidade os negros na imprensa local é motivo de tristeza e preocupação. Acreditamos que a imprensa tem um papel fundamental não só na promoção da igualdade racial mas também no combate ao racismo no Brasil.

Por Magali Moser

Blumenau contra Cunha

Protesto reuniu homens e mulheres pelo repúdio ao Projeto de Lei 5069, do deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), que criminaliza a indução ao aborto

IMG_7232

Foi um dia atípico para Blumenau. Sábado de manhã, 31 de outubro. Aos gritos de “Fora, Cunha” e “O Estado é laico”, homens e mulheres protestaram contra o projeto de lei 5069/13, de autoria do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), que entre outras coisas, dificulta o aborto legal e restringe o acesso à pílula do dia seguinte. O protesto iniciou por volta das 9h com a concentração na Praça Dr Blumenau, na Rua XV de Novembro. Organizado pelo Coletivo Feminista Casa da Mãe Joana, contou com a presença majoritária de mulheres.

Elas seguravam cartazes com mensagens como “Fica pílula, Cunha sai” e “Tire seu rosário do meu ovário”. As manifestantes distribuíram panfletos sobre os motivos do protesto para quem passava pela rua. Nele, constava a seguinte mensagem, entre outros destaques: “Respeitamos todas as religiões. O que não queremos, nem permitimos, é que dogmas arcaicos e patriarcais determinem o que fazemos com nossos corpos e com nossas vidas”. Algumas delas levaram seus filhos. Outras não puderam conter as lágrimas diante do movimento considerado o primeiro protesto feminista na cidade.

Elas caminharam até a escadaria da Catedral, onde fizeram uma pausa e seguiram até a Prefeitura Municipal. Numa das falas finais, a advogada Rosane Magaly Martins lembrou que o primeiro encontro do coletivo reuniu não mais que cinco meninas. Ela destacou a emoção de ver o movimento ganhar força e as mulheres se conscientizando de seus direitos. Reforçou ainda a necessidade de difundir os riscos da aprovação do PL e a necessidade de juntar forças nesta causa.
A manifestação não se limitou ao protesto contra Cunha. Também sobraram críticas ao vereador Mário Hildebrandt (PSB), presidente da Câmara Municipal de Vereadores. Ele foi condenado por proibir que assuntos como diversidade de gênero e violência sexual sejam discutidos em sala de aula, no debate do Plano de Educação. Hildebrandt argumenta que pedidos de órgãos ligados às igrejas católicas e evangélicas levaram à retirada dos assuntos do plano.
O projeto de lei que torna crime induzir ou auxiliar gestante a abortar foi aprovado por unanimidade pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dia 21 de outubro. De acordo com o texto do projeto, a mulher que fez aborto só poder ser atendida no hospital depois que comprovar o abuso por meio de exame de corpo e delito. Segundo a lei vigente, o aborto no Brasil só é permitido em caso de estupro ou de risco para a vida da mulher.

Por Magali Moser

IMG_6518

IMG_6545

IMG_6696

IMG_6513

IMG_7150

IMG_7114

Literatura em alta

Escritor Maicon Tenfen comemora indicação do novo livro ao Prêmio Jabuti, como finalista na categoria Juvenil. Quissama concorre com outros nove obras. Resultado final sai dia 19 

Como seria o romance de aventura com um herói negro no século XIX? A inquietação deu origem ao livro Quissama: O império dos Capoeiras, do escritor Maicon Tenfen. Lançado em agosto do ano passado pela Editora Biruta e com ilustrações de Rubens Belli, o livro está na lista dos indicados na categoria Juvenil ao Prêmio Jabuti, considerado o maior e mais completo prêmio do livro no Brasil. A obra concorre com outros nove livros assinados por autores como Ignácio de Loyola Brandão. A premiação será anunciada em 19 de novembro e deixa a comunidade cultural da região em expectativa.

“O prêmio maior eu já ganhei que foi a indicação. Para mim, é uma vitória. Realmente eu não esperava”, conta Tenfen, que recebeu a notícia por email, da editora.
Aos 14 anos, Tenfen leu uma reportagem sobre capoeira em uma revista e desde então cultiva interesse pelo tema. Quando em 2011 saiu do Jornal de Santa Catarina, onde manteve uma coluna diária por quatro anos consecutivos, estava decidido a dedicar-se ao que considera como seu maior projeto literário.

O romance é fruto de pesquisa histórica de dois anos e se passa no Rio de Janeiro no ano de 1868. Reúne personagens como a Princesa Isabel e o escritor José de Alencar, que era ministro da Justiça à época, num misto entre a realidade e a ficção. Não tem linguagem didática, mas sim romanesca, e está sendo adotado em escolas de Ensino Médio por professores de diferentes áreas.

Sobre o livro Quissama
A narrativa se concentra na trajetória de Vitorino Quissama, um escravo de 15 anos que foge da senzala para procurar a mãe desaparecida. O protagonista recorre ao viajante inglês Daniel Woodruff, em passagem pelo Rio de Janeiro, para ajudá lo em sua missão. Curiosidades sobre Dom Pedro II também aparecem na obra. O pesquisador Carlos Eugenio Libano Soares, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), considerado um dos principais pesquisadores em capoeira no país, assina o posfácio.

Quissama é o primeiro livro de uma trilogia. O segundo está em processo de produção e deve ser publicado em 2016. “O maior desafio é não cair na armadilha de transformar a série num panfleto”, acredita Tenfen. O projeto contempla ainda um jogo de tabuleiro a ser lançado em 21 de novembro. Uma das pretensões ainda é adaptá-lo para uma série de animação, com recursos da Ancine.
Quando conversamos, Tenfen havia acabado de vir de uma experiência em Curitiba, onde foi chamado para falar sobre o livro para estudantes. “Eles já tinham lido Quissama e fizeram perguntas que levaram a uma dimensão nova. O livro se enriquece na minha própria cabeça”, constata.
A conversa com Tenfen em 29 de outubro, no terceiro piso da Biblioteca Universitária, onde encaminha as ações como responsável pela EdiFurb, é interrompida com a chegada do professor aposentado Olivo Pedron. Professor de Tenfen durante seis semestres do curso de Letras, foi responsável por colocá-lo em contato com alguns dos autores da Literatura Brasileira, e por consequência, fortalecer a paixão do então aspirante a escritor.
“O que ele buscou está alcançando. Ele veio fazer Letras e não pensava em ser professor. Dizia que queria ser escritor”, relembra Pedron.
Até a indicação ao Jabuti, Tenfen percorreu um longo caminho. Um de seus arrependimentos é ter recorrido à venda de porta em porta quando seus primeiros livros foram lançados, em meados dos anos 1990. Licenciado em Letras pela FURB e mestre e doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, é hoje professor da FURB. Paralelamente ao trabalho de escritor e escritor, Tenfen mantém um canal no YouTube, o Literatus TV, programa para quem gosta e (ainda) não gosta de Literatura. É entusiasta do uso das ferramentas tecnológicas na disseminação da leitura.

Texto e foto: Magali MoserIMG_6382

Em favor da inclusão dos cegos

Recursos tecnológicos facilitam o acesso das pessoas com deficiência visual à leitura e à educação. Mas os obstáculos para promover a acessibilidade ainda desafiam as políticas públicas.

IMG_6115

Centro braille busca ações para facilitar o acesso das pessoas com deficiência visual à cultura na região.
Áudio-descrição: da esquerda para a direita: as integrantes da sociedade cultural amigos do Centro Braille de Blumenau, Luana Tillmann, Yara Luana Ionen, a brailista Eliane Luchini e Karem Resende, com os cães guia mambo (e) e fayal (d) e os livros em braille no Centro de Difusão da Literatura Regional para Cegos, em Blumenau

Fayal é o primeiro a me receber no prédio histórico. O labrador acompanha Yara Luana Ionen, 51, durante 24 horas, desde junho. Ele é um dos cães-guia treinados pelo Instituto Federal Catarinense (IFC) que têm ajudado pessoas com deficiência visual a se locomoverem com mais segurança. Depois aparece Mambo, da raça Golden Retriever, companheiro inseparável de Luana Tillmann, 25, há sete meses. Assim como as amigas, Karem Resende, 36, também quer ter a vida transformada por um cachorro parceiro e aguarda na fila à espera.

As três têm em comum a deficiência visual e o sonho de uma sociedade inclusiva, com políticas públicas que atendam às necessidades daqueles que perderam a capacidade de enxergar, mas não a visão do futuro. Juntas, elas dividem inquietações e alegrias no Centro Braille da Fundação Cultural de Blumenau, entidade que difunde a leitura e a escrita do Sistema Braille na região. Um dos desafios a serem superados é a acessibilidade, no sentido mais amplo da palavra, não só no que se refere à estrutura física e mobilidade urbana, como se costuma pensar. O acesso à cultura e à educação encontram destaque neste pleito.

Luana perdeu a visão aos 15 anos em função de um glaucoma congênito, doença hereditária e complexa. Mas isso não a impediu de realizar o sonho de ser professora. Em 2013 ela se graduou em Pedagogia na FURB. Foi uma das poucas alunas com deficiência visual da universidade. Hoje ela é aluna da especialização Alfabetização e Letramento também na FURB e já percebe mudanças positivas de lá para cá.

“Nos primeiros semestres da faculdade foi mais difícil. Os professores tinham o hábito de entregar textos fotocopiados. Minha mãe ditava em voz alta e eu digitava tudo, mas perdia muito tempo com isso. Nunca consegui fazer leituras complementares durante a graduação. Hoje está bem mais fácil, a maioria dos professores já têm as versões digitalizadas, o que facilita muito meu acesso aos textos”, conta.

IMG_6160

Mudanças na educação

A jovem de longos cabelos compridos se define como “cega muito visual”. Ela adora fotografias. Mesmo sem poder enxergar as fotos depois, faz questão de registrar com a câmera encontros entre amigos. Também tem o cuidado de combinar roupas. No dia do nosso encontro, início do mês de outubro, ela exibia um comprido par de brincos com penduricalhos, em mais uma demonstração da atenção com a aparência. Mas aquilo que se mostra à primeira vista já foi mais interessante para ela em outros tempos.

“Eu tenho cuidado em falar isso porque pode soar romantizado. Mas o que mudou na minha vida foi o desprendimento da necessidade de saber como as pessoas são. Não me importa saber se você é negra, loira… tem olhos azuis… Esta foi uma das grandes virtudes que eu consegui com a cegueira”, relata com convicção.

Luana, Yara e Karem têm em comum não apenas a deficiência visual. Elas também têm a mesma profissão. Escolheram Pedagogia pelo amor à arte de ensinar. Não nasceram cegas. As duas primeiras perderam a visão em razão da doença hereditária e Karem sofreu um acidente em 2009 que a fez perder a visão do olho esquerdo e adquirir baixa visão no olho direito. As três se tornaram militantes dos direitos das pessoas com deficiência visual. Mas a dor da aceitação também fez parte do processo de cada uma.

“Eu entrei em depressão quando a ‘ficha caiu’. Passei quatro dias na cama. Meu filho ainda era um bebê! Outro dia nos perguntaram de onde tiramos forças para viver. É do mesmo lugar que todos os outros! Não é porque sou cega que tenho mais forças para enfrentar os desafios”, conta Yara.

Ela perdeu a visão de forma gradativa, aos 32 anos. Apaixonada por livros, não podia conceber a ideia de ficar longe deles. Ainda hoje tem o hábito de passar em livrarias apenas para sentir o cheiro dos livros. Eles remetem a sensações e lembranças. Ela integra o movimento nacional Visibilidade Cegos do Brasil. Um dos projetos criados pelas ativistas no Centro Braille é o Pipoca Acessível, que exibe filmes com áudio-descrição – recurso de acessibilidade que traduz em palavras as informações imagéticas necessárias para a compreensão da obra. Uma outra iniciativa do grupo é o 1º Concurso Literário “Dedos que Leem”, cujas inscrições vão até 3 de dezembro e a premiação será em 8 de abril de 2016.

Karem foi a última a chegar ao Centro Braille. À espera de um cão-guia, ela acredita que o parceiro poderá representar uma nova fase no convívio com a baixa visão:
“Caí muitas vezes até aceitar o uso da bengala. Aceitar a bengala é uma forma de dizer para o mundo: ‘eu tenho deficiência visual’. Quando comecei a usar a bengala foi um período que marcou meu processo de me aceitar nesta condição”.

Também com formação em Pedagogia, hoje ela busca se ocupar entre outras coisas da produção de origamis – vai ministrar inclusive uma oficina sobre a técnica aprendida quando estudante universitária no Centro Braille. Tem no filho de 14 anos o grande entusiasta.

Pessoas com deficiência na FURB
Segundo a Coordenadoria de Assuntos Estudantis (CAE), são em torno de 80 alunos com algum tipo de deficiência em diferentes cursos na FURB. O maior número é de deficiência física, seguido de autiditiva e visual. As necessidades de adaptação exigidas por esses alunos são tratadas pela CAE na universidade. No caso de surdos, por exemplo, há necessidade do intérprete de Libras, providenciado pela CAE.

Sobre o Braille
Em 1825, um jovem francês inventou um sistema de leitura especial e contribuiu para a formação e inclusão de milhões de pessoas pelo mundo. Louis Braille é seu nome e seu sistema permitiu que cegos, como ele, pudessem ter acesso ao universo da leitura e do conhecimento.

Centro Braille
O Centro Braille funciona desde 2001 na Fundação Cultural de Blumenau e disponibiliza para empréstimo o acervo constituído por livros em Braille, livros falados e filmes com áudio-descrição. O Centro oferece ainda a oficina de Leitura e Escrita em Braille, orientação e mobilidade, noções básicas de tecnologia assistiva através do sistema DOSVOX e material pedagógico adaptado. O atendimento ocorre segunda à quinta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Sextas-feiras das 8h às 11h30min. Interessados em participar das atividades podem entrar em contato pelo telefone (47) 3381-6191 ou (47) 9161 5813.

Por Magali Moser — texto e fotos

IMG_6130Da esquerda para a direita: as integrantes da Sociedade Cultural Amigos do Centro Braille de Blumenau, Eliane Luchini, Yara Luana Ionen, Karem Resende, Luana Tillmann e Maria  Gonçalves, entre materiais e dobraduras preparados para a oficina de origami, no Centro de Difusão da Literatura Regional para Cegos, em Blumenau

Em sintonia

Mal entrei no carro e ela me entregou um pacote embalado em papel brilhante. Dizia ser meu presente de aniversário atrasado. Não adiantou eu insistir, sem hipocrisia ou falsa modéstia: “Eu já tenho o maior presente: tê-la em minha vida”. Colocou o embrulho em minhas mãos e perguntou se eu havia lido a coluna de Martha Medeiros, publicada no Santa de final de semana.

O texto, cujo título é “Minha encrenca preferida”, aborda nossa dificuldade de abandonar velhas dores (pode ser lido aqui: http://revistadonna.clicrbs.com.br/coluna/martha-medeiros-minha-encrenca-querida/). Logo no início, Martha cita o recém lançado livro de Marcelo Rubens Paiva, Ainda Estou Aqui, sobre Eunice Paiva, mãe do autor e esposa do pai dele, Rubens Paiva, deputado federal assassinado durante a ditadura militar. No livro, Marcelo conta como a mãe, hoje aos 83 anos e com Alzheimer, não descansou até reconstruir o quebra-cabeças do desaparecimento do companheiro.

“Eu não gosto muito dela” – adiantou minha amiga, ao se referir à Martha, e continuou: “Mas guardei esta coluna para você”, dando-me o recorte de jornal. “Você leu?” – perguntou.

“Claro, eu li sim e me identifiquei”, respondi, já emendando empolgada: “Estou louca para ler o livro do Marcelo Rubens Paiva”.

Não esperava pela reação dela: Atônita, disparou: “Uiiiiiiiiiiiiii você gosta dele?! Eu odeeeeeeeio! Que nojo” – lançou, antes de sair do carro, no posto de combustível.

Com os olhos arregalados e sem entender, fiquei imobilizada por aquelas palavras. Ecoaram dentro do carro e me deixaram espantada diante do comentário. Sozinha, procurei uma distração. Comecei então a desembrulhar meu presente até o retorno de minha amiga – absolutamente estupefata com a desaprovação de alguém por quem tenho total apreço, inclusive pelos gostos literários, mas também pela humanidade demonstrada nos pequenos gestos.

Não que ela necessariamente tivesse de ser fã do escritor, mas a reação não condizia com a moça de fino trato com quem convivo intensamente nos últimos anos e desenvolvi profunda admiração e estima. Retiro a fita adesiva do papel da livraria e vejo o nome do livro: “Ainda estou aqui”, justamente o livro citado por Martha, o qual falava segundos antes que estava ansiosa para ler!! Não havia comentado isso antes com minha amiga, como ela poderia saber? – uma prova do quanto estamos em sintonia. Vivia naquele minuto esta feliz coincidência. Não pude conter o gritinho histérico de euforia. Levou a certeza ao frentista: tratam-se de loucas! Claro, estava explicado. O ataque de reprovação dela quando citei o autor era uma brincadeira (para meu alívio e felicidade!). Comecei a ler Ainda Estou aqui e não pude parar.

Deixei as leituras técnicas do mestrado em segundo plano temporariamente para devorar as páginas. Não é exagero: O texto de Marcelo Rubens Paiva me envolveu desde as primeiras linhas. Li na adolescência o primeiro livro do autor, Feliz ano velho, vencedor do Prêmio Jabuti e publicado em 1982, sobre as transformações vivenciadas por ele na adolescência e o acidente sofrido três anos antes, quando acordou na UTI totalmente paralisado do pescoço para baixo.

O novo livro remonta à infância do autor, quando ele sofre com o desaparecimento do pai, cassado no golpe de 1964, torturado, preso por supostas ligações com comunistas e morto por militares no momento mais duro da ditadura militar – um dos casos mais emblemáticos do período. É escrito num momento em que simbolicamente o autor enterra o pai, pois é escrito após a Comissão Nacional da Verdade pôr fim ao caso do desaparecimento do político. Já falei sobre o livro para todas as pessoas mais próximas, especialmente as mulheres que cercam meu cotidiano… minha mãe, minha tia, minha irmã, minhas amigas… o universo feminino é o protagonista da obra! Marcelo conhece bem esta realidade, talvez por ter crescido numa casa de cinco mulheres – o que levou a temores de que se tornaria gay, como conta no livro. A maneira como o autor escreve nos capta. É impossível sair incólume.

Na obra, Marcelo Rubens Paiva também recorre às memórias, mas desta vez para traçar a luta da mãe contra o Alzheimer. A relação dele com a mãe é mostrada de forma descarnada e extremamente sensível. Não esconde a frustração de infância em ter uma mãe batizada por ele de “protocolo”, avessa a carinhos e demonstrações de afeto como se espera de uma mãe, ainda mais quando ela é de origem italiana, como no caso.

Reproduzo uma das passagens de que mais gosto: “Aprendi cedo que minha mãe não era a pessoa ideal para se fazer manha, choramingar por nada, reclamar de bobagem. Minhas tias morriam de pena de nós, que bebês, ficávamos chorando meia hora sem que ela acudisse. Era a forma que acreditava ideal para educar um filho. Não nos mimou, palmas. Mas criou cinco chorões. (..) Era prática, culta, sensata, magra, workaholic. Tudo o que não se quer de uma mãe. Falei no passado, reparou? Quando eu queria colo de mãe, apelava para as minhas avós, mães de amigos, professoras. Minha mãe deve ter me dado uns quatro beijos na vida. (…) Nunca dancei com a minha mãe. Nunca a abracei de verdade. Nunca rolei com ela fazendo cócegas. Nunca gargalhamos juntos”).

Apesar de a relação poder ser vista como fria, a leitura nos mostra a forte ligação e proximidade entre os dois. Não por acaso, Marcelo é o escolhido dos cinco filhos (sendo quatro irmãs) a cuidar da mãe quando diagnosticada com Alzheimer. Gratidão à minha querida amiga. Estou aprendendo com ela: Quem tem amigos nunca está sozinho.

Por Magali Moser

20150922_145107

Modal Alternativo

Reitoria volta atrás na privatização do estacionamento da FURB por enquanto. Edital que era para ter sido lançado em agosto está em fase de discussão. Comunidade acadêmica clama por estímulo ao uso da bike e FURB estuda interligação de todos os campi

Depois de anunciar a privatização do estacionamento da FURB, a reitoria voltou atrás. O vice-reitor Udo Schroeder afirmou em agosto que o edital não foi lançado e não há garantias de que será este ano. A mudança do tom não diminui no entanto a preocupação da comunidade acadêmica quanto ao futuro do espaço. Há uma unanimidade em meio à polêmica: a universidade precisa estimular o uso da bicicleta entre alunos e funcionários. No espaço de uma vaga para carro cabem de sete a 10 bikes estacionadas. Por isso, este é considerado um uso mais racional do espaço urbano.

IMG_4605

Desde que Francielle Schmitz passou a utilizar a bicicleta como meio de transporte, há três anos, testemunhou um novo movimento na cidade. O ápice foi no primeiro semestre deste ano, quando a aluna do curso de Química da FURB chegou com a magrela para mais uma aula e não encontrou vagas no bicicletário do pátio central do campus 1. O jeito foi deixar a bike num poste próximo. Foi a primeira vez que viu algo parecido na universidade. “Eu fiquei feliz. Existe um certo solidarismo entre os usuários da bicicleta. Eles são mais abertos à socialização, contribuem para uma cidade mais humanizada”, comenta.

A estudante, no entanto, acredita que a FURB poderia avançar no sentido de promover o uso da bicicleta entre alunos e funcionários. “O carro ainda é visto como status. Aqui na FURB também é assim. Faltam espaços de convivência. O estacionamento para carros tem prioridade. Como uma universidade voltada para pessoas e para o futuro pode permanecer neste modelo ultrapassado?”, questiona.

Numa rápida consulta de campo, identificamos 66 vagas de paraciclos no campus 1 da universidade. A maioria delas está no pátio central, próximo à biblioteca, onde ficam 35 vagas (11 em pedra e 24 em estrutura metálica). Há nove vagas também ao lado da cantina, no bloco I, oito ao lado do bloco R e quatro próximas à piscina. A FURB estuda a possibilidade de interligação dos campi universitários afim de garantir a mobilidade de forma sustentável.

São 76 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas nas ruas de Blumenau, de acordo com a Secretaria de Planejamento (veja quadro nas duas próximas páginas). A prefeitura anunciou a implantação de 36 novos quilômetros no sistema cicloviário, incluindo ciclovias, ciclofaixas e passeio compartilhado. A obra está prevista num programa dividido em cinco lotes. O primeiro lote já foi aprovado e entrará no processo de execução nos próximos 15 dias com uma estimativa de 9 km nas seguintes ruas: Gustavo Zimmermann, Jacob Ineichen, Frederico Voelz, Guilherme Scharf e Ari Barroso, todas no Bairro Itoupava Seca. A perspectiva de término de execução do novo sistema ciclístico em Blumenau é de dois a três anos.

“O argumento mais ouvido para justificar a ausência de ciclovia é a falta de dinheiro. Mas a gente vê um investimento muito maior voltado para os veículos motorizados, é desproporcional”, argumenta o presidente da ONG Associação Blumenauense Pró-Ciclovias, Giovani Rafael Seibel, que começou a utilizar a bike como meio de transporte quando cursava Biologia na FURB, em 2002.

Moradora da Itoupava Norte, Francielle acostumou-se ao uso da bike. Adquiriu até uma capa para não deixar a companheira nem nos dias chuvosos. A distância da casa dela, na Itoupava Norte, até a universidade só é impedimento para a mãe, que acha uma “loucura” a pedalada diária.

O servidor da FURB, Gabriel Augusto Anibelli, 21, pas- sou a utilizar a bicicleta para se locomover até o trabalho. Ele questiona a possibilidade de privatização do estacionamento. Acredita que a FURB poderia adotar um sistema de controle, em que o usuário recebe um cartão na entrada e o devolve na saída, mas sem gerar receita-extra.

“Se o objetivo é aumentar a segurança, o modelo adotado no estacionamento para os servidores hoje poderia ser estendido para os alunos, sem criar novas despesas a eles, que já pagam uma mensalidade alta”, acredita.

A terceirização no estacionamento é sugerida pela Coordenadoria de Planejamento (Coplan), órgão criado em 2013 na FURB, com a intenção de pensar a universidade como um todo. A Coplan, através das arquitetas Ariana Brandt Knop, Keila Peixer e Carla Cintia Back, recebeu o Expressão Universitária para explicar as mudanças. A Coplan argumenta que o sistema de estacionamento pago já é utilizado em outras universidades da região, a exemplo da Univali, com sede em Itajaí, e Univille, em Joinville. O Expressão Universitária apurou que quem controla o estacionamento na Univali e Univille é a Estapar. A universidade em Joinville paga pelo serviço prestado, por isso não há cobrança de alunos e funcionários. Além disso, a empresa divide com a universidade a arrecadação com os valores arrecadados com os que efetivamente pagam. Na Univali, funcionários pagam um valor semestral de R$ 70,00 pelo uso do estacionamento e dos alunos é cobrado uma tarifa de R$ 2,85 por entrada no espaço. A comunidade externa paga um valor superior a R$ 7,00.

A privatização do estacionamento da FURB, segundo a Coplan, faz parte de um projeto maior que prevê a interligação entre os campi da FURB e a proposta de humanização do ambiente institucional, com a criação do Distrito Universitário. Hoje a universidade é tomada por áreas de circulação. As únicas áreas de convivência são em frente à biblioteca A professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da FURB, Carla Cintia Back, defende o sistema: “Vai trazer benefícios imediatos, como as novas vagas de paraciclos”.

ABC DEVE GANHAR SEDE NA UNIVERSIDADE

IMG_4584

Os benefícios da bicicleta vão além da diminuição do trânsito. Não poluir o ambiente e cuidar da saúde também estão na lista das vantagens oferecidas pelo uso contínuo da bike. De acordo com o guia Bicicleta na Mídia, desenvolvido pela ONG Rodas da Paz e divulgado nacionalmente no último mês, a bicicleta tem emissão zero de poluentes, enquanto o deslocamento individual de carro emite 126 g de CO2 por km.

Em Blumenau, a Associação Blumenauense Pró-Ciclovias (ABC) busca diminuir os obstáculos que atrapalham a prática na cidade. À frente da entidade desde 2013, Giovani Rafael Seibel lembra que a entidade busca uma aproximação com a universidade desde a posse do reitor João Natel.

As reuniões da entidade hoje acontecem na terceira quarta-feira de cada mês no galpão de Arquitetura da FURB, sempre abertas a toda a comunidade. “Num primeiro momento, nós buscamos um espaço físico para a ABC na FURB, mas depois pretendemos incluir a discussão sobre a bicicleta na universi- dade”, conta Seibel.

Seibel é integrante do Conselho de Planejamento, liga- do à Secretaria de Planejamento de Blumenau e da Frente Parlamentar de Mobilidade Urbana. Também é membro do Conselho Fiscal da União dos Ciclistas do Brasil. A ABC foi fundada em 1997 com a intenção de garantir segurança e estrutura adequada para os usuários da bicicleta na cidade.

“A relação da universidade com a comunidade é uma das razões para ela ter sido criada. Esta relação precisa ser diária, com a ABC na FURB vamos avançar nesse sentido”, considera o professor de Arquitetura da FURB João Francisco Noll, que utiliza a bicicleta para os 12 quilômetros que percorre diariamente, nas idas e vindas do trabalho e define como falta de vontade política a questão da bicicleta na cidade.

O USO DA BICICLETA COMO RESOLUÇÃO

IMG_4555

Foi a resolução do ano novo para a professora de Marketing da FURB, Josiane Fernandes: passar a usar a bicicleta como meio de transporte com mais frequência. Deu tão certo que ela chegou a vender o carro, também motivado pela viagem que fará este mês para o doutorado na Inglaterra. Desde então ela sai do Bairro da Velha, onde mora, até a FURB de bike. São cerca de 25 minutos, exatamente o mesmo tempo usado para percorrer o trajeto de carro, com a vantagem de não agredir o meio ambiente e promover o bem estar.

“Não existe absolutamente nada igual. Você se conecta com a vida, com as pessoas, com a cidade. Você passa a enxer- gar as pessoas, a ser mais tolerante. Não consigo mais imaginar minha vida sem a bike”, vibra.

Josiane também acha que a FURB poderia ampliar as ações em benefício do uso da bicicleta. “Eu acredito que a estrutura deve vir antes. Para vir da minha casa até aqui é uma aventura. A universidade tem a obrigação de ser modelo. Não é função da universidade criar vagas de estacionamento de carros. Mas ela poderia melhorar a infraestrutura para ciclistas”, acredita.

Em entrevista à Rádio Nereu Ramos em julho, o reitor João Natel desconversou sobre a possibilidade de privatização do estacionamento. Ele disse que está se pensando na implantação de medidas de controle de acesso, apenas com cancelas a fim de identificar se os espaços de estacionamento na FURB são suficientes ou não.

Por Magali Moser, jornalista — Texto e fotos

Vagas Estacionamento FURB

Campus

Servidores Alunos Total Veículos Motos Veículos Motos Veículos Motos

Campus1

260 0 380 250 640 250

Campus2

90 0 300 75 390 75

Campus3 28 0 180 20 208 20

Total Furb 378 0 860 345 1238 345

DIFERENÇAS: Ciclovia: É um espaço segregado para fluxo de bicicletas. Isso significa que há uma separação física isolando os ciclistas dos demais veículos. Ciclofaixa: É quando há apenas uma faixa pintada no chão, sem separação física de qualquer tipo (inclusive cones ou cavaletes). Pode haver “olhos de gato” ou no máximo os tachões do tipo “tartaruga”, como os que separam as faixas de ônibus. Espaço compartilhado: O tráfego de bicicletas pode ser compartilhado tanto com carros quanto com pedestres. Fonte: ONG Vá de Bike

“A privatização dos estacionamentos da FURB necessita considerar alguns pontos: Em se tratando de segurança, a FURB é, conforme jurisprudências que consultei na internet, responsável pelos veículos estacionados em suas dependências, independentemente se são de propriedade de alunos, professores, servidores ou de qualquer outra pessoa que resolva estacionar na FURB, e independentemente se há ou não segurança e cancelas. Portanto, a privatização do estacionamento retira da administração superior a responsabilidade pela segurança e a transfere a terceiros, significando que todos pagarão por o que já lhes é de direito. Por outro lado, penso que a FURB deveria ser liberada da exigência de oferecer centenas de vagas de automóveis, em favor de grandes espaços de convivência e de socialização, abrindo-os à comunidade. Se se observar a implantação dos campi da FURB, veremos que um percentual bastante elevado é reservado para os estacionamentos. Essa liberação é possível com a devida altera- ção da legislação municipal que força toda e qualquer edificação a ter um número expressivo de vagas conforme a área construída. No atual contexto mundial, que busca alternativas aos automóveis, para a redução de emissões de CO2, e como já se fez com a legislação da cidade de São Paulo, dever-se-ia determinar o número máximo de vagas a serem oferecidas ou sua extinção. Em cidades europeias como Londres, há grandes edifícios que possuem pouquíssimas vagas para automóveis, como é o caso do The Shard, o edifício mais alto da Europa, com 87 andares, de au- toria do arquiteto Renzo Piano, que possui apenas 48 vagas e será ocupado por 12.000 pessoas (http://elpais.com/elpais/2013/01/21/ eps/1358772006_754807.html). Essa decisão de limitar as vagas está baseada na possibilidade de se poder chegar ao destino com a utilização de outros meios de transporte, tais como ônibus, bicicletas ou a pé. No caso londrino, há um eficiente sistema de transporte público, como ônibus e metrô. Já no caso blumenauense carecemos de um sistema de transporte público que possa minimamente ser considerado como tal, não há qualquer iniciativa pública concreta de se implementar um sistema eficiente de ciclovias e as calçadas impedem a livre circulação de pedestres, cadeirantes, deficientes visuais e mamães com carrinhos de bebês. Os dois casos são absurdamente antagônicos. Penso que se a administração superior da universidade implementar o sistema de estacionamento pago, terá que propor, antes, alternativas viáveis, como melhorias nas calçadas de seu entorno, com a devida acessibilidade, e a implantação de bicicletários em distintos pontos de cada campus, nos quais os possíveis futuros usuários de bicicletas possam guardá-las com segurança e protegidas contra intempéries, e que possam ir a seus destinos com a certeza de que, quando retornarem, encontrarão suas bicicletas intactas. Também é recomendável a instalação de vestiários em diferentes pontos dos campi para que os usuários possam fazer sua higienização após um percurso sob sol abrasador, já que nossas calçadas não dispõem de arborização urbana que pudessem minimizar os efeitos climáticos. Também penso que as manifestações contra a privatização dos estacionamentos ou sua extinção poderão acarretar movimentos no sentido de pressionar o poder público para que realize as melhorias urbanas que todos, há tempos, esperam e que denotam a total ausência na resolução dos problemas urbanos.”

João Francisco Noll Professor de Arquitetura da FURB

Onde estão os leitores?

Queda do número de empréstimos leva a biblioteca universitária da FURB a buscar soluções e superar a ideia que concebe o espaço apenas como armazenagem de livros

IMG_4897

O professor Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira é um leitor contumaz. Tem dificuldade para escolher um autor específico que mais o tenha influenciado politicamente, embora não deixe de citar uma lista incluindo pilares dos estudos sociológicos como Karl Marx, Noam Chomsky, Marx Weber e Émile Durkheim. Desde agosto de 1990 na FURB, integra o corpo docente do Curso de Ciências Sociais e é testemunha das mudanças na biblioteca da FURB. Apontado pelos funcionários do espaço como um dos leitores mais assíduos do local, o gaúcho de Cruz Alta é um dos que resiste em tempos de informação digitalizada.
Com um acervo superior a 550 mil volumes, citada como a segunda maior de Santa Catarina e referência no Sul do Brasil, a biblioteca atravessa um período de crise. O número de  empréstimos tem sofrido uma queda brusca nos últimos anos. Os dados mostram esta tendência. Em 2009 foram 14.241 usuários que fizeram empréstimos enquanto ano passado o número caiu para 11.541. (veja os dados na tabela na página ao lado). A situação está dentro do comportamento observado em bibliotecas universitárias de todo o mundo, na avaliação da direção da biblioteca. Para o diretor, Darlan Jevaer Schmitt, esta queda se dá pelo avanço da web e suas muitas ferramentas de busca, além da política de acesso aberto no mundo das publicações científicas. É resultado direto do momento vivido, ao comparar  a situção aos relatos ouvidos em seminários nacionais de bibliotecas universitárias. No entanto, as mudanças apresentam novos desafios.
“Uma biblioteca não é um depósito de livros, mas uma estação de serviços que contribui para a busca e a difusão de informação que, uma vez trabalhada, torna-se conhecimento”, defende o professor Oliveira, ao estimular a ideia da biblioteca enquanto casa de conhecimento.

Um novo conceito de biblioteca
As mudanças nos hábitos de leitura já haviam sido identificadas pelo colunista do Expressão, prof. Dr. Marcos Antônio Mattedi. Na edição de dezembro de 2013 ele constata: “É sempre mais difícil encontrar alguém lendo um livro na FURB. Alunos e professores, nós estamos cada vez mais ligados em smartphones. Vivemos um momento em que as tecnologias digitais entram em simbiose com as práticas comunicativas, produtivas, afetivas, sexuais, educacionais, recreativas, etc, redefinindo as ligações sociais. E assim, o livro parece deixar de ser  a melhor forma de transportar informação. A sensação que fica é que uma mudança profunda está acontecendo”.
Uma das alternativas citadas pelo diretor da biblioteca para enfrentar as mudanças é o conceito de “biblioteca parque”, capaz de introduzir outros atrativos  culturais no local, como exposições, bate-papo com escritores, exibição de filmes seguidos de debate, contemplação de obras de arte.
“A biblioteca é um espaço de produção de conhecimento, mas se ficar só nisso ela tende a ter problemas de se sustentar e se manter. Ela precisa ser vista como equipamento cultural. Este é o espaço mais público da universidade”, avalia Schmitt.
O diretor da biblioteca tem muito claro qual deve ser o papel do espaço. Para ele, a função da biblioteca é melhorar as perspectivas das pessoas no mundo. Para isso, ele defende ações de aproximação da comunidade. Pela primeira vez em 47 anos de existência, a biblioteca abriu domingo em dois dias em 2013, em abril e outubro. Nos dois momentos, o registro de público surpreendeu e faz a direção pensar em repetir a ação.
“Competência informacional é o serviço mais importante prestado pela biblioteca: acessar a informação relevante em um menor tempo”, acredita a bibliotecária Tânia Maria de Souza Ferreira. E continua: “O material impresso e o silêncio fizeram a biblioteca viajar 2 mil anos na história. A Internet apresenta vantagens como a dispensa de espaço para armazenamento, e a seleção mais criteriosa para impressão, evitando dessa forma mais danos ambientais. Mas há a necessidade de um Plano B principalmente para informação científica que nasce quase exclusivamente no formato digital.”, alerta.
Há 20 anos funcionária do espaço, Tânia acompanhou as transformações com a mudança do impresso para o digital, mas não acredita no fim da biblioteca – talvez fim da biblioteca no formato que estamos acostumados, mas nascendo como espaço de multimeios em coleções acessíveis de forma concreta: “coleções fazem conexões”. Para ela, sempre será necessário existir as conexões entre o conhecimento, ainda que os livros em formato papel deixem de ser fabricados.

Número de usuários da Biblioteca (2009-2014)

Usuários    2009    2010    2011    2012    2013    2014
Habilitados    17.724    17.729    16.073    15.367    15.337    14.080
Efetuaram empréstimos    14.241    13.465    12.730    11.880    11.722    11.541
Média empréstimos/ usuários    104,00    96,29        92,16    87,74    84,90    58,3

Movimento de empréstimos (2009-2014)

2009    2010    2011    2012    2013    2014
1.474.983    1.296.499    1.173.202    1.042.355    995.250    820.917

Apaixonados por livros
Desde que ingressou na graduação em Biologia, em março de 1981, o professor Pedro Bertelli costuma passar mais tempo na FURB do que na própria casa. Há um espaço específico na universidade preferido por ele: O biólogo pode ser encontrado na Biblioteca Universitária da FURB até aos sábados! Com licença aposentadoria desde março, ele ocupa o tempo entre leituras diversas. Mas é usuário frequente do espaço desde os tempos que a biblioteca não tinha ar condicionado e ficava anexa ao bloco A. Costumava levar turmas de alunos para a biblioteca afim de ensiná-los a utilizar o espaço de forma adequada.
“Poderia ler em casa, mas ler na biblioteca é diferente. Aqui é o espaço mais adequado para esta atividade. Em casa posso sentir o cheiro de comida do vizinho, o latido do cachorro, a campainha pode tocar. Aqui não há qualquer distração”, defende o entusiasta do espaço.
Não são só os livros específicos da Biologia que atraem seu interesse. O professor gosta de percorrer os corredores e se deparar com descobertas literárias e periódicos.
“Ler é aprender, conhecer, viajar no pensamento. Vivemos uma época de muita informação e pouco conhecimento”, opina o professor que passa em média 2 horas por dia na biblioteca e é antigo conhecido dos funcionários. Bertelli não acredita que as novas tecnologias possam representar uma ameaça à biblioteca.
Quando o Expressão Universitária esteve no local em agosto para a produção da reportagem, chamou a atenção a quantidade de usuários nos pufes, superior ao número de leitores nas mesas. As mudanças no perfil dos leitores chamam a atenção do professor Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira não apenas na biblioteca, mas também na sala de aula.  Um caso emblemático apontado por ele para demonstrar esta constatação foi recente trabalho que passou para os alunos. Nos trabalhos entregues pelos alunos, a hifienização das palavras aparecia no meio das frases, numa clara demonstração de que o texto havia sido copiado integralmente da internet. A baixa produção autoral é um dos reflexos desses tempos marcados pela disseminação da informação digital e “da ideia de que tudo está na internet”, na avaliação do professor. “A digitalização tem um lado prático. Você manipula e transmite a informação com facilidade. Mas do ponto de vista do processo de aprendizado tem sido negativo. Estudantes estão perdendo a capacidade de pesquisar”, lamenta.
A Biblioteca Universitária conta com 41 funcionários. A construção do espaço começou com uma doação do acervo particular do professor Martinho Cardoso da Veiga, primeiro reitor da FURB – que hoje dá nome ao local.

Texto e fotos – Por Magali Moser

IMG_5407

IMG_5397

IMG_4895

Arte haitiana colore Blumenau

IMG_4338 IMG_4315 IMG_4298 IMG_4313 IMG_4310

A casa de número 29 da Rua Apóstolo São Paulo, na Escola Agrícola, esconde uma galeria de telas coloridas. É no quintal que os haitianos Enock Lapeine, 47 anos, Marc Yves Taverne, 46, e Jean Oriol Sinriel, 46, transformam telas brancas em corpos femininos, paisagens, traços abstratos e tudo aquilo que a imaginação permitir. A criatividade não tem limites e busca inspiração na cultura do país mais pobre das Américas.

A fluência no português não nega: O primeiro a chegar foi Sinriel, que desembarcou em março do ano passado e escolheu Blumenau por ter um amigo haitiano na cidade. O primeiro emprego foi na produção de uma facção. Depois disso, ele trabalhou numa fábrica de fogões. Enquanto busca uma recolocação no mercado de trabalho, Sinriel se ocupa de pinceis, cores e tintas.

“Quando cheguei, ano passado, era mais fácil encontrar emprego. Tinham mais opções. Pode ser que não queiram empregar haitianos também”, cogita e adianta: “minha presença no Brasil não é para trabalhar em fábrica. Quero divulgar a minha arte. Eu gosto de pintar, são 28 anos pintando. Encontro prazer nisso porque com minha pintura sou capaz de fazer milagres, inventar e criar.”

Nas telas pintadas por Sinriel, os traços assumem variadas influências. Do abstrato ao surrealista. A arte dos três é marcada por cores vivas e por cenas que retratam o cotidiano, ao campo, a tradições e a religiosidade do povo haitiano. A receptividade ao trabalho do trio entre os blumenauenses tem sido positiva. Eles costumam expor as telas em eventos, como a Feira da Amizade. Todos os trabalhos estão à venda. Os preços variam de R$ 200 a R$ 400.

“A inspiração vem da cultura africana. Nós temos raízes semelhantes, por isso eu gosto”, comenta Lapeine enquanto apresenta uma de suas telas, com ênfase para mulheres negras com turbantes na cabeça. Sinriel se dipõe a ensinar a arte de forma gratuita para qualquer entidade. Ele lembra que na República Dominicana já ajudou uma entidade por quatro anos. Os três estudaram pintura no Haiti e na República Dominicana. Em Blumenau, eles querem criar uma associação cultural.

No Facebook, criaram a página Casa da Arte Caribenha em Blumenau, como forma de divulgar o trabalho. Enquanto buscam esforços para viver da arte em Blumenau, convivem com diferenças e estranhamentos:

“Diariamente ouvimos de blumenauenses que o Haiti fica na África. Creio que é falta de informação”, analisa Sinriel.

A presença estrangeira na cidade está ajudando não apenas na preservação de uma das vertentes mais ricas da cultura haitiana, mas tornando Blumenau mais colorida e plural. mais de 3,5 mil haitianos em SC Migrações acompanham a humanidade. Desde os tempos mais remo- tos tem-se registros desses movimentos em busca de melhores condições de vida.

No caso específico dos haitianos, a migração para o Brasil é um processo que teve início em 2010, após o terremoto que atingiu o país caribenho em 12 de janeiro de 2010. Apesar das medidas tomadas pelo governo e do apoio da sociedade civil organizada, a falta de instrumentos legais de uma política migratória adequada faz com que a chegada desses imigrantes ao país se transforme em desafio para a sociedade brasileira.

Em Blumenau, a prefeitura não dispõe de um levantamento sobre a presença de haitianos na cidade. Uma reunião dia 6 de julho em Florianópolis vai tratar sobre ações de acolhimento dos imigrantes. A ideia é que a reunião contribua para a construção de diretrizes de uma política nacional de imigração adequada às demandas.

“Há o entendimento de que a demanda exige políticas de governo. Por enquanto, não temos registro de haitianos desempregados ou com vulnerabilidade social na cidade”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Social, Valdecir Mengarda. Dados da Polícia Federal dão conta que 3,5 mil haitianos estão registrados no Estado. Mas a Secretaria de Estado de Assistência Social acredita que o número é maior.

Segundo a Superintendência Regional do Trabalho ligada ao Ministério do Trabalho, 2.259 haitianos emitiram carteira de trabalho no estado apenas em 2015.

Texto e fotos: Magali Moser

IMG_4331 (1)

Nossos novos imigrantes

“Sou uma apaixonada pela América dita Latina e Caribe – andei um bocado por ela, já, e do Caribe, num primeiro momento fiquei contente, é claro, mas um pouco receosa de abordar aquela gente visivelmente nova no nosso país (sempre me chamaram a atenção por sua elegância e porte), sem ter bem certeza se eram imigrantes ou não. Sabia que os haitianos estavam chegando, mas seriam haitianas aquelas pessoas que eu via? Sabia diversas coisas sobre o Haiti, como sua gloriosa independência em 1804 (antes de qualquer de nosotros), onde os haitianos botaram a correr até as tropas que Napoleão mandou para subjuga-los, que sua língua primeira chamava-se creole, e que tinham o francês como segunda língua – e como falo um pouquinho de francês, ficava doida para abordá-los. Até que um dia arrisquei:

                                   – Bonjour! Ça va? – e um primeiro sorriso haitiano se abriu para mim, e uma nova amizade havia começado. Esse primeiro amigo foi o Maxilien Thomas, de quem continuo sendo amiga até hoje, um jovem haitiano cujos olhos brilham como estrelinhas e cujo sorriso encanta!

                                   Depois de Maxilien, vieram outros e outros, e em cada um muitas surpresas e alegrias, pois se tem gente educada, afável e refinada a chegar ao Brasil atualmente, são nossos irmãos haitianos. (Um detalhe que pouca gente sabe: quase todos são formados em curso superior, muitas vezes em mais de um, e dominam diversas línguas. Num instante, começam a aprender o português.) Quis o acaso que eu descobrisse ser vizinha de três grandes artistas plásticos chegados do Haiti: Oriol, Enock e Marc. Pintam quadros tão maravilhosos, com tanta arte e tantas cores, que não há quem não se impressione com a qualidade do que fazem!

                                   Não é necessário ser-se adivinho para se saber que viraram meus irmãos, meus amigos do peito, e sua casa é o lugar onde procuro refrigério para poder descansar das minhas correrias e conversar coisas inteligentes. Temos tal intimidade de almas que até meu cachorro já dorme no colo deles.

                                   Hoje sei reconhecer um haitiano de longe, por seu porte normalmente esguio e sempre digno, por sua elegância muito diferente da de qualquer brasileiro, por sua simpatia. E então passo por um deles ou um pequeno grupo e digo:

                                   – Bonsoir! Ça va? – e tenho a certeza de que uma nova amizade começou!”

                                   Blumenau, 01 de Julho de 2015.

                                   Urda Alice Klueger

                                   Escritora, historiadora e doutora em Geografia

A invisibilidade sobre as áreas de concentração de pobreza de Blumenau

O município conhecido por ostentar títulos como Europa Brasileira e Loira Blumenau, é responsável por concentrar o maior número de moradores em favelas do Estado, de acordo com os últimos dados do IBGE, em 2010. No entanto, a prática da invisibilidade social sobre essas áreas alcança também a imprensa

Diante da imagem de cidade rica, polo industrial e detentora de um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do País, a cidade de Blumenau/SC esconde outra realidade por trás dos morros. O processo de exclusão associado a práticas de higienização social adotadas em todo o país se repetem no município conhecido por ostentar títulos como “Europa brasileira” e “Loira Blumenau”. Mas os contrastes observados em Blumenau são chocantes: dados do IBGE colocam a cidade como a maior possuidora de habitantes em favelas do Estado. No entanto, a invisibilidade social das áreas de concentração de pobreza alcança também a imprensa. Como a questão dificilmente vem à tona, é como se o problema não existisse. A intenção deste artigo é provocar o debate a respeito dessas práticas no jornalismo e problematizar a questão do deslocamento de populações numa clara demonstração de que para o poder público ao longo do tempo, a prioridade é remover e não resolver a situação.

Para além de um “Vale Europeu”
Uma outra Blumenau se esconde por trás da marcada pelas raízes alemãs, de gente galega, pele branca e olhos claros. Conhecida nacionalmente pela Oktoberfest – propagada como a segunda maior festa alemã do mundo, atrás apenas da de Munique, na Alemanha – o município no Vale do Itajaí constitui um dos polos econômicos mais significativos do Estado. Líder catarinense da geração de empregos por quatro anos consecutivos (2011 a 2014) e detentora da sétima posição na classificação de todos os municípios brasileiros, incluindo as capitais, a terceira cidade mais populosa do Estado. Apresenta um dos melhores PIBs de Santa Catarina, com destaque nacional em diversos setores econômicos, como o têxtil e a informática. É reverenciada pelas tradições germânicas trazidas desde a chegada do farmacêutico responsável por batizar a então colônia, Hermann Blumenau, em 1850.
Embora costumeiramente aclamado como “herói”, há facetas escondidas na vida de Hermann que merecem aprofundamento e pesquisa. Uma delas se configura na sua proibição da circulação de jornais na Blumenau Colônia. Documentos históricos dão conta de que o fundador Hermann Blumenau era contra a veiculação de jornal, pois temia abusos e transtornos no seu empreendimento. “Não desejava, pois, no seio da família blumenauense, tal instrumento de ódios e dissensões partidárias.”
O fato talvez explique porque a imprensa na cidade foi instituída com atraso, 31 anos após a fundação da colônia, em 1881, com a criação do jornal Blumenauer Zeitung, editado em língua alemã e fundado por Hermann Baumgarten. Possivelmente também ajude a entender práticas conservadoras ligadas à imprensa em Blumenau até hoje, como o fato de a cidade, embora considerada a terceira maior do Estado, tenha apenas um único jornal diário em circulação, e a resistência em abordar os problemas sociais que a acompanham. Questões históricas à parte, apesar dos indicadores positivos que colocam a cidade como referência, a realidade encontrada atrás dos morros destoa da imagem vendida nos cartões postais e inclusive em reportagens sobre Blumenau, considerando este o gênero jornalístico mais adequado para desvendar a realidade.
Blumenau é a cidade catarinense com maior número de favelas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2010, o município possui mais habitantes que residem nas chamadas “aglomerações urbanas subnormais”: um total de 23.131 dos estimados 330 mil moradores do município. Os residentes em áreas de concentração de pobreza são 7,5% da população. Sabe-se que este é um exemplo entre tantos outros das cidades brasileiras. Mas talvez pelos números positivos que apresenta Blumenau como líder na geração de empregos do Estado e pelos indicadores econômicos e de qualidade de vida, os contrastes observados no município sejam ainda mais chocantes.
A cidade enfrenta o desafio de crescer de forma organizada e includente. As precárias condições de moradia e infraestrutura somam pelo menos 47 áreas responsáveis por formar um abismo social entre a periferia e a imagem criada nos jornais. Este artigo se propõe a pensar de que maneira o Jornalismo pode contribuir para discutir o assunto. Além disso, propõe reflexões acerca da reportagem como formato capaz de gerar a contextualização necessária sobre a temática. Apesar de ter ocupado na década de 1980 o primeiro lugar no ranking nacional do IDH, Blumenau perdeu a posição especialmente pela crise no setor têxtil. Mas destaca-se ainda em relação aos 193 municípios catarinenses, a cidade ocupa a 7ª posição no levantamento.

O processo de ocultamento
O processo de ocultação da pobreza segue as práticas de remoções para “limpar a paisagem”, observadas no restante do país e remonta ao ano de 1949, com a transferência dos moradores da primeira favela de Blumenau, a Farroupilha, no Centro, às margens do Rio Itajaí Açu, para áreas afastadas, numa clara demonstração de que a prioridade do poder público era remover e não resolver a questão. Às vésperas das comemorações do centenário da cidade (1950), o então prefeito municipal, Frederico Guilherme Busch, acatou a recomendação de comissão constituída na Câmara de Vereadores com a remoção dos moradores daquela comunidade. Eles foram transferidos para áreas periféricas e precárias que tinham em comum o fato de estarem atrás dos morros e distantes da paisagem central, as Ruas Pedro Krauss Sênior, no Bairro Vorstadt, e Araranguá, no Garcia. Pretende-se aqui provocar o debate a respeito dessas práticas no jornalismo desde o deslocamento em 1949 das 102 famílias (cerca de 600 moradores) que residiam na Favela Farroupilha, sem quaisquer problematização por parte dos jornais na época, que se limitaram a registrar o episódio – talvez por a medida ser comum em outros centros urbanos naquele momento.
Araci Manoel Ponciano é testemunha de que historicamente Blumenau esconde seus pobres. Moradora da primeira favela da cidade, a Farroupilha, próximo à Ponte de Ferro, ela foi deslocada para a Rua Pedro Krauss Sênior. Perdeu a casa na tragédia de 2008 e foi parar num abrigo provisório. A trajetória da octogenária exemplifica os impactos da falta de uma política habitacional eficaz para as populações de baixa renda. Em entrevista concedida por ela à autora em 2010 para o artigo A indisfarçável favelização em Blumenau, publicado na Revista Blumenau em Cadernos, do Arquivo Histórico de Blumenau, em abril daquele ano, Araci desabafou: “Fomos despejados como animais. Saímos com uma mão na frente e a outra atrás”. O objetivo era instituir, no local da Favela Farroupilha, um loteamento com residências de alto padrão a serem vendidas a terceiros (A NAÇÃO, 1949, p. 2, 6ª coluna). […] o histórico da pobreza em Blumenau, ao se explicitar espacialmente como questão urbana, tem início já no final da década de 1920, mais especificamente em 1929, quando o processo de industrialização local estava se consolidando. O primeiro aglomerado que surgiu em condições “ilegais” do ponto de vista da aquisição dos terrenos, situava-se bem no centro da cidade, ao lado da ponte de ferro (hoje Ponte Aldo Pereira de Andrade) que outrora era passagem do trem. A ocupação do local tem relação direta com a construção da ponte de ferro, levando-se em conta que grande parte dos moradores da localidade eram operários que trabalhavam na sua construção. A pequena comunidade chegou a abrigar 102 famílias e foi autodenominada pelos moradores de “Favela Farroupilha”, como ficou conhecida na cidade. (SAMAGAIA, 2010, p. 105).
Para o historiador Marcos César Muniz, cujo trabalho de conclusão do curso de graduação em História foi sobre a Favela Farroupilha, em 2007, na Furb, cria-se assim um apartheid social em Blumenau. Os não bem quistos, os pobres, chamados migrantes ou “os de fora” são isolados ou afastados do convívio direto com o restante da sociedade: A exclusão socioespacial se dá como algo natural. Os pobres devem viver distantes do Centro da cidade, do centro das discussões. A iniciativa de “varrer” os pobres do Centro era uma prática adotada no país inteiro na época. A busca pelo projeto “modernizante” com enfoque higienista, importado da Europa, servia de modelo na tentativa de “eliminação” dos pobres dos centros urbanos. Em Blumenau, a particularidade fica por conta dos morros e por essas áreas terem sido escondidas por tanto tempo.
O terreno onde ficava a antiga favela foi reflorestado, contribuindo para o apagamento da memória coletiva sobre o episódio. “O favelamento no Centro da cidade estava aumentando e por isso deveria ser escondido. É (…) esconder a pobreza atrás dos morros e colocar o pobre como o responsável pelos problemas existentes”, avalia a historiadora Evemara Faustino em artigo publicado, em 2002, na revista Blumenau em Cadernos. Mais de 60 anos após a medida, as duas áreas para onde os moradores foram removidos ainda concentram parte da população excluída do município, o que ratifica a ideia de que o deslocamento agravou o problema. O maior conglomerado de moradores em situação de pobreza em Blumenau é o da Rua Araranguá, bairro Garcia, com 3.741 habitantes, conforme o IBGE.
Esconder e maquiar os contrastes acompanham Blumenau desde a Favela Farroupilha e persistem. Em 2002 o jornal alternativo de circulação nacional O Pasquim fez uma entrevista com o então prefeito de Blumenau Décio Lima (PT) que foi publicada com a seguinte manchete: “Blumenau é uma cidade sem favelas”. A pesquisa nas páginas dos jornais reforça a dificuldade da imprensa abordar o tema com aprofundamento e contextualização.
Raramente o jornalismo praticado na cidade consegue romper o silêncio sobre a existência dessas comunidades e abordar o assunto com a complexidade exigida. Como a questão dificilmente vem à tona, é como se não existisse. O senso comum reforça a ideia de que não há moradores em condições de risco e a concepção de “cidade jardim” ou “Vale Europeu” se mantém. As áreas de concentração de pobreza raramente aparecem na cobertura jornalística. Quando citadas, surgem de modo pejorativo. O silenciamento sobre essas comunidades, geralmente periféricas e distantes dos interesses econômicos disputados pelos jornais, costuma ser quebrado apenas quando há movimentos específicos que tomam dimensão para além daquelas áreas, de modo que se torna inevitável a cobertura pela imprensa.

Por Magali Moser

Foto: Jandyr Nascimento

O artigo na íntegra foi publicado nos Anais do Evento III MEJOR – Colóquio Internacional – Os silêncios do Jornalismo, ocorrido na UFSC em maio. O texto completo pode ser acessado no endereço: http://mejor2015.sites.ufsc.br/?page_id=411